Agência de empregos: como cair de 30 para 5 minutos por vaga com Claude Code
Para recrutadores: rascunhe ficha de candidato e texto de vaga com IA. Com prompts prontos, checklist e script de verificação.
Sexta-feira, cinco da tarde. A entrevista com o candidato acabou de terminar e na sua cabeça só ficou aquela sensação: “esse aqui talvez combine com a vaga do galpão”. Mas o texto da vaga ainda está em branco. E na segunda de manhã você precisa enviar cinco vagas, cada uma para um candidato diferente.
Quando acompanhei de perto o trabalho de um amigo que é recrutador numa agência de empregos, foi exatamente aqui que mais se perdia tempo. As anotações da entrevista ficavam soltas num bloco de notas. O texto da vaga era copiado de algum envio antigo, trocando só o nome, o salário e o local de trabalho. Ao reler, às vezes aparecia coisa como “ficou a forma de falar do candidato anterior” no meio do texto.
E tem mais: quanto mais correndo o texto é feito, mais raso ele fica. Sobra só aquele monte de frase genérica do tipo “perto do metrô, bom salário, aceita sem experiência”, que serve para qualquer vaga. A taxa de resposta dos candidatos não sobe.
Neste artigo, vou montar um fluxo em que o Claude Code e a IA generativa rascunham essa “ficha de candidato e texto de vaga”, e a pessoa se concentra no acabamento. Falo de código o mínimo possível. No lugar, deixo prompts prontos para copiar e colar, um checklist para estruturar as anotações da entrevista e um script de verificação que peneira o que sai.
Pontos principais
- O alvo é o recrutador de agência de empregos cair do tempo de montar ficha de candidato e texto de vaga de cerca de 30 minutos por vaga para uns 5 minutos.
- O que a IA faz é “produzir rascunhos em volume” e “ajustar a forma de escrever”. A compatibilidade entre candidato e vaga e a conferência final de salário e condições ficam com a pessoa.
- Preparei dois modelos de prompt prontos para colar: um para a ficha de candidato e outro para o texto da vaga.
- Incluí um script de verificação de 20 linhas que confere por máquina se sobrou algum nome de pessoa ou número de salário errado no texto.
- O tratamento de dados pessoais fica em capítulo à parte. Nome, telefone e endereço viram apelido genérico antes de ir para a IA.
Onde o recrutador de agência de empregos mais perde tempo
Primeiro, vamos deixar claro quem é o leitor. Este artigo pensa no recrutador que, em agência de empregos por registro ou em contratação intermediada, toca sozinho desde a entrevista do candidato até a proposta de vaga e o ajuste com a empresa. Faz de 3 a 6 entrevistas por dia e, nos intervalos, envia de 5 a 15 textos de vaga. Muitos ainda acumulam a parte comercial.
O fluxo de trabalho, de forma resumida, costuma ser assim:
- Entrevista o candidato e levanta condições desejadas, histórico e perfil.
- Resume o levantamento numa ficha de candidato e registra no sistema interno ou na planilha.
- Escolhe 2 ou 3 vagas da carteira que mais combinam.
- Escreve o texto de vaga para o candidato e envia por e-mail ou chat.
- Conforme a reação, manda carta de recomendação ou apresentação do perfil para a empresa.
Desses, o 2 e o 4 são o trabalho de escrever. A entrevista em si e o olho clínico para enxergar compatibilidade só a pessoa faz. Mas a “transcrição e formatação” da ficha e do texto é, toda vez, quase o mesmo passo a passo. É aqui que a IA generativa entra.
Os retrabalhos e as dores mais comuns
Acompanhando de perto, os padrões de retrabalho eram quase sempre os mesmos.
- Acidente de copiar e colar: ao reaproveitar um texto antigo, sobrou o nome do candidato anterior ou o salário de outra vaga. A pessoa percebe depois de enviar e manda e-mail de desculpas.
- Texto raso: escrito às pressas, vira só “ambiente familiar” e “aceita sem experiência”, e falta a frase que toca o histórico daquela pessoa. Ninguém responde.
- Anotação sem padrão: no dia corrido, a anotação tem 3 linhas; no dia tranquilo, 10. Ao reler depois, falta material para decidir.
- Trabalho dobrado: escreve do zero, duas vezes, o texto para o candidato e a recomendação para a empresa. Sendo que a fonte é a mesma.
Antes de adotar a IA, esses quatro problemas apareciam em algum ponto toda semana. Depois que passamos a rascunhar com IA, a granularidade das anotações ficou constante e o texto de vaga sempre passou a ter “aquela frase só daquela pessoa”. O acidente de copiar e colar quem pega é o script de verificação que mostro mais adiante.
Caso de uso 1: estruturar a anotação da entrevista numa ficha de candidato
A anotação crua, logo depois da entrevista, quase nunca está em forma de texto. É um rabisco do tipo “3 anos de call center, quer folga no fim de semana, até 30 min de trajeto, mais atendimento que produção, sem lacuna no currículo”. O primeiro trabalho é deixar isso num formato que dá para buscar e comparar depois.
O que a IA assume vai até a “formatação”. O peso de cada critério quem dá é a pessoa. Mandando converter para preencher os itens do checklist abaixo, a granularidade da anotação fica igual toda vez.
- Função desejada / função a evitar
- Local de trabalho e tempo de trajeto aceitável
- Salário desejado / piso mínimo
- Dias de trabalho / condições de escala
- Resumo do histórico (função e tempo mais recentes)
- A “condição inegociável” dita pela própria pessoa
- Observação do recrutador (perfil, se tende a permanecer)
Só o último item não deixe a IA escrever: a pessoa coloca uma frase à mão. É aqui que mora o valor da agência.
Caso de uso 2: produzir rascunhos de texto de vaga em volume
Com a ficha de candidato e os dados da vaga prontos, o rascunho do texto já pode ir para a IA. O ponto é fazer entrar uma frase de “por que recomendo essa vaga para você”, ligando o histórico do candidato às características da vaga. Só com isso, o ar de modelo pronto some.
A tabela abaixo é a linha que separa o que vai para a IA e o que a pessoa confere sempre.
| Etapa | Vai para a IA | A pessoa decide sempre |
|---|---|---|
| Formatar a anotação | Estruturar em tópicos | Avaliar perfil e permanência |
| Escolher a vaga | Ajudar a afunilar candidatas | Decisão final de recomendar |
| Rascunho do texto | Gerar e formatar o texto | Conferir números de salário e local |
| Ajuste de tom | Ajustar cortesia e tamanho | Decisão de enviar ao candidato |
| Recomendação à empresa | Rascunho a partir do texto | Conferir fatos antes de enviar |
Deixar a conferência de números com a pessoa tem motivo. A IA generativa às vezes escreve um salário ou uma data que parecem plausíveis, mas não existem. Número que não está no dado de origem, sempre desconfie.
Caso de uso 3: reaproveitar o texto do candidato como recomendação à empresa
Sobre a mesma pessoa, ao candidato você escreve “por que combina com você” e à empresa, “por que deveria contratar”. O ponto de vista é o oposto, mas a fonte é a mesma ficha de candidato. Pronto o rascunho do candidato, mandando reescrever para a empresa, o trabalho dobrado some.
No reaproveitamento, deixe explícito no prompt para cortar da versão da empresa as informações que só o candidato pode ver (piso mínimo de salário, a parte mais crua do motivo de troca de emprego). Esquecer de cortar vira acidente, então isso também o script de verificação pega.
Se você ainda não mexeu no Claude Code, vale dar uma olhada antes em Como começar com o Claude Code e em Claude Code para quem não é engenheiro; depois disso os prompts entram bem mais fácil.
Modelos de prompt prontos para copiar e colar
Primeiro, o da ficha de candidato. Use colando a anotação crua logo depois da entrevista. Nome e telefone, troque por apelido antes de colar (o motivo vem mais adiante).
Você é o assistente de um recrutador de agência de empregos.
Formate a anotação de entrevista abaixo numa ficha de candidato que dê para buscar e comparar depois.
# Regras
- Preencha sempre os itens abaixo. Para item sem informação, escreva "não confirmado".
- Não invente salário, local de trabalho ou data que não esteja na anotação.
- Não escreva a avaliação de perfil e permanência do candidato; deixe em branco para a pessoa completar.
# Itens de saída
- Função desejada / função a evitar
- Local de trabalho / tempo de trajeto aceitável
- Salário desejado / piso mínimo
- Dias de trabalho / condições de escala
- Resumo do histórico (função e tempo mais recentes)
- Condições inegociáveis
- Observação do recrutador (em branco)
# Anotação da entrevista
<<cole a anotação crua aqui>>
Agora o do texto de vaga. Você entrega a ficha de candidato já formatada e os dados da vaga.
Você é o assistente de um recrutador de agência de empregos.
Faça um rascunho de texto de vaga para o candidato, em tom cordial, de 300 a 400 caracteres.
# Elementos obrigatórios
- No começo, uma frase com o motivo de recomendar essa vaga a esse candidato, ligando histórico e característica da vaga.
- Conteúdo do trabalho, local, salário e escala em tópicos.
- Números (salário, dias, período) ficam exatamente como nos dados da vaga; não invente.
- No fim, uma frase incentivando o próximo passo (dúvida, agendar entrevista).
# Ficha de candidato
<<cole a ficha já formatada>>
# Dados da vaga
<<cole as condições da vaga>>
Só de alternar entre esses dois, a granularidade das anotações e a estrutura do texto ficam estáveis. Quem quiser aprofundar um pouco mais como lapidar o prompt, leia também Engenharia de prompt avançada.
Script de verificação que peneira o que sai
Quando você passa a produzir rascunhos em volume, surge a preocupação: “será que sobrou o nome do candidato anterior?”. Nisso a máquina faz melhor que o olho humano. Deixo aqui um script em Node.js, de umas 20 linhas, que confere se o texto gerado tem alguma palavra proibida (nome de candidato antigo, nome de cidade de outra vaga etc.). Não precisa de @anthropic-ai/sdk nem nada; roda só com Node.js.
// check-draft.mjs
// uso: node check-draft.mjs draft.txt
import { readFile } from "node:fs/promises";
// palavras que não podem aparecer na saída (nome de candidato antigo, cidade de outra vaga etc.)
const forbidden = ["Sr. Silva", "vaga anterior", "filial Rio", "salário R$ 18/h"];
const file = process.argv[2] ?? "draft.txt";
const text = await readFile(file, "utf8");
const hits = forbidden.filter((word) => text.includes(word));
if (hits.length === 0) {
console.log("OK: nenhuma palavra proibida encontrada.");
} else {
console.log("Conferir: estas palavras sobraram no texto ->", hits.join(", "));
process.exitCode = 1; // útil quando você quer travar numa automação
}
Basta reescrever o array forbidden conforme as suas vagas. Passar isso uma vez antes de enviar já faz o acidente de copiar e colar do começo quase sumir. Como embutir essa verificação no CLAUDE.md está bem detalhado em Boas práticas de CLAUDE.md.
Cuidados com dados pessoais e segurança
Aqui é o ponto mais importante para o recrutador. Nome, telefone, endereço atual e nome da empresa anterior do candidato não vão direto para a IA generativa. O motivo é simples: enviar a um serviço de IA externo informação que identifica a pessoa pode, por si só, ferir o compromisso firmado com quem se cadastrou.
Na prática, antes de mandar para a IA, faça assim:
- O nome vira “Candidato A” ou “Candidato X”.
- Telefone, e-mail e endereço são apagados item por item.
- O nome da empresa anterior fica só com o ramo, como “grande call center”.
Quando o rascunho volta, devolver o apelido para o nome real é feito na pessoa, no editor de texto local. Se a empresa ainda não tem regra para usar IA generativa, defina o escopo de uso antes. No Brasil, vale uma lida no texto oficial da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) para servir de base da regra interna.
Antes e depois de adotar, e a ROI estimada
Os números são só referência. Na equipe do meu amigo, medimos o tempo de montar cada texto de vaga.
- Antes: reaproveitando texto antigo e ajustando, cerca de 20 a 30 minutos por vaga.
- Depois: gerando o rascunho e dando o acabamento, cerca de 5 a 8 minutos por vaga.
Supondo 10 vagas por dia, com um recrutador tocando sozinho, uma economia de 20 minutos por vaga dá cerca de 200 minutos por dia, mais de 3 horas livres. Em 20 dias úteis, passa de 60 horas no mês. Esse tempo dá para aumentar o número de entrevistas ou usar no acompanhamento dos candidatos.
Claro, nos primeiros dias o ajuste de prompt e a montagem da lista de palavras proibidas até consomem mais tempo. O retorno começou a aparecer mais ou menos na segunda semana. Truques diários de economizar tempo também estão reunidos em Dicas de produtividade.
Se a ideia for revisar, na empresa toda, o trabalho de texto da operação de recrutamento, começar pelo treinamento e consultoria, montando juntos o desenho de prompt e as regras de uso, ajuda a fixar isso no dia a dia.
Perguntas frequentes
P. Deixando com a IA, o texto não fica mecânico? R. Fica, sim. Mas isso acontece quando você não torna obrigatória a “frase que liga histórico e vaga”. Mandando o prompt incluir uma frase com o motivo de recomendar, o ar de modelo pronto some bastante. O acabamento final é sempre da pessoa.
P. Preciso conectar a IA direto ao sistema interno da empresa? R. Não. No começo, basta entregar a anotação e os dados da vaga colando, e receber o rascunho. A integração com o sistema dá para pensar depois, quando a operação estiver firme.
P. A IA não erra o salário ou o local de trabalho? R. Erra. Por isso a conferência de números fica na etapa da pessoa. A IA generativa às vezes escreve com confiança um número que não está no dado de origem, então, antes de enviar, sempre cruze com os dados da vaga.
P. Deixar o nome do candidato como apelido não deixa o texto estranho? R. Na fase de rascunho, “Candidato A” não é problema. Depois, no seu editor, é só substituir o “Candidato A” do texto que voltou pelo nome real. Dá para trocar tudo de uma vez com buscar e substituir.
O que constatei testando na prática
Eu mesmo peguei 5 anotações de entrevista com meu amigo e passei pelos prompts e pelo script de verificação acima. Queria checar três coisas: o tempo de cada rascunho, a detecção do acidente de copiar e colar e o trabalho da rotina de apelido.
O rascunho do texto de vaga ficou pronto, em geral, em cerca de 5 minutos por vaga. O que mais surtiu efeito foi a instrução de “uma frase com o motivo de recomendar”; só com isso o texto vira algo que dá vontade de responder. No script de verificação, alimentei de propósito um texto que ainda tinha o nome do candidato anterior, e ele travou direitinho com “Conferir”. A rotina de apelido pareceu chata no começo, mas como é só uma substituição a mais, em 2 dias virou hábito.
Por outro lado, houve uma vez em que a IA arredondou de leve um número da vaga. As duas últimas casas do salário mudaram. Confirmou que deixar a conferência final de números com a pessoa foi a escolha certa. Rascunho com a IA, decisão e números com a pessoa. Mantendo essa linha, montar ficha de candidato e texto de vaga fica, com certeza, bem mais leve.
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Sobre o autor
Masa
Engenheiro focado em workflows práticos com Claude Code.
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