Como escrever o pedido da primeira tarefa para o Claude Code
Escreva em uma página o pedido da primeira tarefa do Claude Code: objetivo, escopo, verificação e como reverter. Com exemplo para copiar.
“Esse repositório aqui, dá um jeito de ajeitar o README pra mim.”
Trinta minutos depois de instalar, esse foi o primeiro pedido que mandei para o Claude Code. O que voltou: eu queria só o README, mas o diff também tinha reescrito o nome dos scripts no package.json. Funcionava, sim, mas três arquivos mudaram em lugares que não eram o que eu queria corrigir. Fiquei travado na frente da tela pensando: “Isso aqui eu posso publicar?”.
Por que o Claude Code, que é esperto, mexe em lugares que ninguém pediu? Não é problema de capacidade. É que eu não tinha definido uma única vez “até onde ele pode ir”. É como dizer para o novato “cuida da loja aí” e sair: você volta e ele reorganizou as prateleiras inteiras.
Este artigo é sobre escrever esse “até onde” em uma folha só. Eu chamo isso de pedido da primeira tarefa.
Pontos principais
- A primeira tarefa dá errado porque você pede “dá um jeito” sem definir objetivo, escopo permitido, verificação e como reverter.
- O pedido tem 9 campos: objetivo / estado do leitor / pode ler / pode editar / pode executar / não tocar / verificação / como reverter / próximo passo.
- Ao Claude Code você delega “ler, corrigir, rodar o comando de verificação”. Deletar, subir para produção e gastar dinheiro são decisões humanas.
- Tem um template de pedido para copiar e colar, e um script em JavaScript que checa automaticamente se faltou algum campo.
- Comece por uma única tarefa pequena que dá para reverter com
gitse falhar — é o caminho mais curto para a primeira vitória.
Por que a primeira tarefa dá errado
Logo depois de instalar o Claude Code, a maioria das pessoas faz “o pedido amplo”: “organiza o repositório”, “conserta o README”. É compreensível — você quer testar o que ele consegue fazer.
Mas, com um pedido amplo, os primeiros dez minutos viram exploração. O Claude Code lê arquivos espalhados, conserta por conta própria o que parece relacionado e termina com um relatório vago do tipo “deve funcionar”. Você acaba tendo que reler o diff inteiro e conclui: “teria sido mais rápido fazer eu mesmo”.
A causa não é a inteligência do modelo. É não ter entregado o objetivo e os limites. Até um novato humano, no primeiro dia, se você disser “fica à vontade”, ou trava ou descontrola. Definir os limites primeiro faz esse acidente quase desaparecer.
Se você ainda tem insegurança com o básico da operação, dê uma olhada no Guia de primeiros passos do Claude Code antes de voltar — aí esta conversa sobre o pedido entra muito mais fácil.
Os 9 campos que entram no pedido
Toda vez eu escrevo estes 9 campos em uma folha. Não precisa de palavra difícil. Basta preencher uma resposta por linha.
| Campo | O que escrever | Exemplo ruim → bom |
|---|---|---|
| Objetivo | Como fica “pronto e certo” no fim | ”Corrigir o README” → “Alinhar os passos do README ao package.json” |
| Estado do leitor | Para quem é o trabalho | (em branco) → “Iniciante, quer acertar de primeira uma vez” |
| Pode ler | Arquivos que ele pode consultar | (tudo) → “Só README.md e package.json” |
| Pode editar | Arquivos que ele pode reescrever | (tudo) → “Só README.md” |
| Pode executar | Comandos que ele pode rodar | (qualquer um) → “Só npm run build” |
| Não tocar | Lugares que jamais pode mudar | (não dito) → “package-lock, config de deploy, preços” |
| Verificação | A prova de que deu certo | ”Funcionou, ok” → “build passa / diff só no README” |
| Como reverter | Como voltar ao estado anterior se falhar | (nenhuma) → “Restaurar o README pelo git” |
| Próximo passo | Um único caminho para o leitor seguir | (lista 3) → “Primeiro só o material introdutório grátis” |
O importante são “não tocar”, “verificação” e “como reverter”. No momento em que você escreve esses três, o pedido deixa de ser “um favor” e vira “um trabalho que dá para delegar com segurança”.
Template de pedido para copiar e colar
Este é o modelo que dá para usar direto. Está dentro de um bloco de código de propósito, para você colar e entregar inteiro ao Claude Code. Troque pelo nome do seu repositório e pelo lugar que quer corrigir.
# Pedido da primeira tarefa
Objetivo: alinhar os passos de setup do README ao conteúdo do package.json.
Estado do leitor: iniciante. Quer acertar de primeira, uma vez só.
Pode ler:
- README.md
- package.json
Pode editar:
- só README.md
Pode executar:
- npm run build
Não tocar:
- package-lock.json
- config de deploy (variáveis de ambiente, configuração de publicação)
- preços ou links de inscrição
Verificação:
- npm run build passa
- git diff mostra mudança só em README.md
Como reverter:
- se a verificação falhar, restaurar README.md pelo git
Próximo passo:
- por enquanto, indicar só o material introdutório grátis
Num exemplo real: se for só alinhar os passos do README ao package.json, ele lê o README e o package.json, edita só o README, e a prova é npm run build. Nessa granularidade, se falhar você reverte com um único git checkout -- README.md. A primeira tarefa pode ser estreita assim mesmo. Aliás, quanto mais estreita, mais você mesmo consegue julgar se deu certo ou não.
O que delegar ao Claude Code e o que você decide
Quando escrevo o pedido, traço esta linha na cabeça. Se o limite fica vago, o Claude Code atravessa a linha “achando que está ajudando”.
| Pode delegar ao Claude Code | Você decide (não automatize) |
|---|---|
| Ler os arquivos indicados | Decidir quais arquivos ele pode tocar |
| Corrigir só os arquivos indicados | Deletar arquivos |
Rodar comandos de verificação como npm run build | Subir para produção / fazer deploy |
| Devolver um resumo do diff | Operações que geram cobrança |
| Relatar a causa de uma falha | Operações irreversíveis como git push --force |
O lado esquerdo você delega. O lado direito, no começo, deixe tudo como “confirmar com a pessoa antes de executar”. Só depois mova para o lado automático as operações que você já sabe que são seguras, aos poucos. Só de seguir essa ordem, o número de sustos no meio da madrugada despenca.
Na hora de entregar o pedido, acrescente uma frase assim.
Execute apenas uma tarefa pequena, dentro do escopo deste pedido.
O que você julgar fora do escopo, não execute: apenas proponha.
Primeiro, devolva estes 5 itens:
1. arquivos que vai ler
2. arquivos que vai editar
3. comandos de verificação antes e depois do trabalho
4. resumo do diff das mudanças
5. como reverter se falhar
O segredo é pedir “devolva o plano e a verificação antes de implementar”. Se o plano que voltar ultrapassar o escopo do pedido, você consegue parar ali mesmo. Parar antes de ele colocar a mão na massa significa zero faxina depois.
Código que checa falhas no pedido automaticamente
Mesmo achando que escreveu tudo, é comum faltar um campo. Eu deixo a máquina conferir a presença de cada item. É um JavaScript que roda copiando e colando. Dá para executar com Node.js, tipo node check-brief.mjs.
// Confere mecanicamente se o pedido tem todos os campos necessários
const requiredFields = [
"Objetivo",
"Pode ler",
"Pode editar",
"Pode executar",
"Não tocar",
"Verificação",
"Como reverter",
"Próximo passo",
];
export function validateFirstTaskBrief(markdown) {
// Lista os campos que estão faltando
const missing = requiredFields.filter((field) => !markdown.includes(field));
// Verifica também se o comando de prova (aqui, npm run build) está escrito
const hasProofCommand = markdown.includes("npm run build");
return {
ok: missing.length === 0,
missing,
readyForClaudeCode: missing.length === 0 && hasProofCommand,
};
}
// Exemplo de execução
const sample = `
Objetivo: alinhar o README ao package.json
Pode ler: README.md
Pode editar: README.md
Pode executar: npm run build
Não tocar: package-lock.json
Verificação: npm run build passa
Como reverter: restaurar README.md pelo git
Próximo passo: material introdutório grátis
`;
const result = validateFirstTaskBrief(sample);
console.log(result);
// → { ok: true, missing: [], readyForClaudeCode: true }
Se você passar o pedido por essa checagem antes de entregar, o esquecimento de “não tocar” e “como reverter” some. Quando se confia só no olho humano, num dia corrido sempre escapa algo. O que a máquina consegue conferir, é mais cômodo deixar com a máquina.
Casos em que isso funciona (3 exemplos)
1. Corrigir README ou documentação de procedimentos
“Atualiza a documentação” tem escopo infinito. “Só o capítulo de setup do README, alinhado aos nomes dos scripts do package.json” reduz o diff a um arquivo só e dá para conferir com npm run build. É o que mais combina com a primeira tarefa.
2. Primeira revisão de um pull request
Em vez de “dá uma olhada nesse PR”, peça: “leia só o que está dentro de src/ entre os arquivos alterados e aponte onde os testes podem quebrar. Não corrija o código, só aponte”. Delegue a leitura, mas deixe a decisão de corrigir com a pessoa. Isso evita o acidente de “corrigir por conta própria e criar outro bug”.
3. Trocar a CTA (o link para o próximo passo do leitor) Mesmo para trocar um único botão no fim de um artigo popular, “acha o componente relacionado e conserta” é amplo demais. Defina antes no pedido: “arquivos que pode tocar”, “URL pública a conferir”, “link a trocar”. A conferência depois muda de “parece bom mais ou menos” para “com essa prova, dá para publicar”.
Três erros que eu mesmo cometi
Vou ser sincero. Antes de usar o pedido, eu repetia os mesmos erros.
O primeiro foi não escrever “não tocar”. Eu queria só o README corrigido, mas o Claude Code, por gentileza, ajeitou até o package.json, e o build parou de passar. Bastou adicionar as 3 linhas de Não tocar: package-lock.json, config de deploy e isso nunca mais aconteceu.
O segundo foi resolver a verificação com “se funcionar, ok”. Como eu não tinha definido o que significa “funcionar”, toda vez percorria o diff inteiro com o olho. Quando passei para um comando concreto, Verificação: npm run build passa / diff só no README, a conferência passou a levar 10 segundos.
O terceiro foi listar três próximos passos. Quando colei no fim do artigo material, curso e consultoria de uma vez, a reação do leitor virou névoa. Quando reduzi a um só, conforme o estado do leitor, no fim aquele um é que recebia clique de verdade. O que deve estar escrito vale a pena registrar como regra do projeto em Como escrever um bom CLAUDE.md, para não oscilar a cada vez.
Perguntas frequentes
P. Não é trabalhoso escrever os 9 campos toda vez?
Só nas primeiras vezes. Faça um template e guarde como first-task-brief.md: a partir daí, basta trocar 3 ou 4 linhas do conteúdo. O tempo de escrever é muito menor do que o de reler um diff descontrolado.
P. Preciso do pedido até para tarefas simples? Para algo do nível “corrigir um erro de digitação em um arquivo”, um pedido verbal já basta. O pedido vale quando o trabalho pode tocar vários arquivos, ou quando passa perto de produção, cobrança ou exclusão. Na dúvida, escreva — não custa nada.
P. Devo escrever as chaves em inglês (Goal, May edit etc.)? Se a equipe compara logs lado a lado, chaves em inglês ficam alinhadas e ajudam. Para uso individual, português basta. O Claude Code entende as duas formas. O que importa não é o idioma, e sim não faltar nenhum campo.
P. Quem não programa também consegue usar? Consegue. Em redação de artigos e organização de materiais, a ideia de “pode ler / pode editar / não tocar” é a mesma. Montei a porta de entrada para quem não é engenheiro em Claude Code para quem não é engenheiro.
P. E se o Claude Code ignorar o pedido e tocar fora do escopo? Primeiro, peça “devolva o plano e a verificação antes de tudo” e pare antes de ele agir — esse é o básico. Se mesmo assim ele ultrapassar, é bem provável que o “não tocar” do seu pedido não esteja concreto. Especificar até o nome da pasta e do arquivo costuma resolver.
O que aconteceu quando testei na prática
O caso mais claro foi testar este pedido naquele trabalho pequeno de alinhar o README ao package.json. Como eu escrevia antes Pode editar: só README.md, o impulso do Claude Code de estender a mão para o package-lock ou arquivos de config parava já na etapa do plano, antes da execução. O ganho grande foi ter eliminado o trabalho de reler o diff.
Colocar dois itens na Verificação, npm run build e git diff, também funcionou. O julgamento depois do trabalho deixou de ser “no clima, parece bom” e virou uma afirmação: “build verde, diff só no README, então dá para publicar”. Por outro lado, na vez em que deixei o Próximo passo em branco, eu mesmo fiquei na dúvida — “o que mesmo eu indico agora?” — e o link no fim do artigo ficou borrado.
No fim, o que eu entendi é que dar muita liberdade ao Claude Code não é o que tem valor. Cortar a primeira tarefa em algo pequeno e deixar sucesso, falha e próxima ação visíveis aos seus próprios olhos — isso é o mais rápido. A chatice de escrever uma folha de limites é quase nada perto da chatice de reler depois um diff descontrolado.
Quem quer afinar mais a engrenagem de fora encontra o comportamento das configurações de permissão na documentação oficial do Claude Code da Anthropic — ali fica claro como o pedido e as configurações dividem o papel. Se você quer levar o Claude Code para o trabalho da empresa e ajustar as regras de operação junto, na trilha de treinamento e consultoria dá para começar pela montagem do tipo de pedido sob medida para o seu trabalho real.
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Sobre o autor
Masa
Engenheiro focado em workflows práticos com Claude Code.
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